Sylvio Fraga

Compositor e poeta, Sylvio Fraga dirigiu o Museu Antônio Parreiras, em Niterói. Que nessa sentença não se leia incongruência mas sim abrangência. 

Ademais, o objetivo deste texto, escrito para um site de gravadora, só será alcançado se observarmos que o que singulariza a música de Sylvio é, em grande medida, o modo como traduz formas e dicções aprendidas nos pintores e escritores que ama.

No álbum de estreia, Rosto (2012), já estavam delineados traços estilísticos que se radicalizaram ainda mais em Cigarra no trovão (2015): as amplas seções instrumentais espraiadas entre os versos, a imprevisibilidade das claves rítmicas e o frescor jazzístico das bandas – em Rosto um trio; em Cigarra um quinteto que aliás logo cai na estrada. 

Foram vinte as cidades do Rio, de São Paulo e Minas, que viram o baixista Bruno Aguillar, o trompetista José Arimatéa, o pianista Lucas Cypriano e o baterista Mac William Caetano tocando com Sylvio sobre um caminhão-palco…

Acompanhar os passos fonográficos desse carioca é também experimentar o progressivo adensamento textural de sua música. No primeiro disco que ele gravou na Rocinante, Canção da cabra (2019), a organicidade da banda – reforçada por Bernardo Ramos na guitarra – e as orquestrações de Letieres Leite se amalgamaram tanto que os créditos acabaram sendo divididos com o arranjador. 

Letieres afirmou na ocasião: “o trabalho de Sylvio é um dos que mais me encantam hoje no Brasil. Esse disco traz uma contribuição importante ao avanço e às possibilidades da canção.” Impressionado pelas claves rítmicas propostas pelo cancionista – irredutíveis à simetria pressuposta pelo sistema eurocêntrico de escrita musical –, o grande maestro baiano o definia como “um compositor ímpar”. 

Tal “imparidade” é abordada em outros termos pela compositora e cantora Joyce na contracapa de Canção da cabra: “a música de Sylvio Fraga, assim como sua poesia, tem arestas, asperezas, voos aéreos e noturnos entre Sicília e Andaluzia, aterrissagens no chão de Minas ou no nordeste brasileiro”. 

Embora seja mestre em poesia pela New York University, autor dos livros Entre árvores (selecionado por Armando Freitas Filho para a editora Bem-Te-Vi, 2011), Cardume (7 Letras, 2015, considerado por Antonio Cicero “um dos melhores livros de poesia contemporânea”) e Quero-Quero na Várzea (Todavia, 2022, no prelo), organizador e tradutor da coletânea O andar ao lado: três novos poetas norte americanos (7 Letras, 2012) e letrista de boa parte de suas canções, Sylvio quando compõe em parceria provavelmente será o melodista. Tende a ser assim com Pedro Carneiro (nome civil do Vovô Bebê) e tem sido sempre assim com Eucanaã Ferraz e Thiago Amud, seu parceiro mais frequente. 

Robalo nenhum, o quarto disco de nosso melodista-poeta-letrista-cantor, é um dos lançamentos da Rocinante em 2022. Nele, a percussividade afro-baiana que Letieres legara ao som do carioca já está plenamente incorporada, “dando chão de terreiro para a liberdade sem gravidade de compasso, sem gravidade de discurso”, como o crítico Leonardo Lichote registrou na contracapa. 

Co-produtor dos álbuns Bacia do Cobre de Marcelo Galter, Erika Ribeiro (Ígor Stravinsky, Sofia Gubaidúlina e Hermeto Pascoal), O enigma Lexeu de Letieres Leite, Moacir de todos os sambas da Orkestra Rumpilezz, Síntese do lance de Jards Macalé e João Donato (com quem começou parceria, agora fazendo as letras), e de outros que estão chegando, Sylvio Fraga é idealizador e diretor artístico da gravadora que vos escreve. Mas deste texto não é o autor.

Fotografia: João Atala

Robalo nenhum

Sylvio Fraga

R013 | abril 2022

Canção da cabra

Sylvio Fraga Quinteto e Letieres Leite

R006 | agosto 2019