Thiago Amud

O ofício de compor música e letra desde os 14 anos desdobra-se, em Thiago Amud, nos ofícios de arranjar, tocar violão e cantar.

Suas primeiras aparições nos palcos remontam à década de 90, quando participou de festivais estudantis e se apresentou com sua primeira banda, a Regonguz. 

Pouco antes de ingressar na UNIRIO, na qual se graduou em Música, Thiago foi agraciado, por dois anos consecutivos com, respectivamente, o segundo e o terceiro lugares no Prêmio Rio Jovem Artista, promovido pela prefeitura do Rio de Janeiro. O compositor Guinga, jurado em ambas as edições, impressionado pela originalidade do jovem artista, se tornou seu maior incentivador e, anos depois, seu parceiro em mais de uma dezena de canções.

Depois, já não tão jovem, Amud também se tornaria parceiro de Francis Hime, Roberto Menescal, Clarice Assad, Sergio Assad, Zé Renato, Zé Paulo Becker, Luiza Brina, Sylvio Fraga – numa lista que parece não querer se esgotar. 

O trabalho de Thiago tem chamado a atenção de colegas, jornalistas e formadores de opinião de modo crescente, ano após ano, disco após disco – do progressivo Sacradança de 2010 ao super-sebastianista De ponta a ponta tudo é praia-palma de 2013 (ambos lançados pela Delira), do caleidoscópico O cinema que o sol não apaga de 2018 ao enxuto e sereno São de 2021 (ambos lançados por nossa gravadora Rocinante).

Podemos pinçar, por exemplo, afirmações de críticos como Tárik de Souza, que resenhando Sacradança para o Jornal do Brasil notou que “Amud debuta já com personalidade musical formada“, e Silvio Essinger, que na matéria d’O Globo dedicada a De ponta a ponta tudo é praia-palma (considerado um dos dez melhores álbuns de 2013 pelo jornal) arrematou: “não há rótulo possível”. Ainda assim, o norte-americano Jon Pareles, após assistir a um show de Amud na mostra Brazilian Explorative Music realizada em Nova Iorque (2014), rotulou-o, em artigo para o New York Times, como “um radical clandestino”. No mesmo ano, Leonardo Lichote, em crítica escrita sobre a apresentação do compositor na Mostra Cantautores em Belo Horizonte, arriscou: “na canção brasileira hoje, Thiago é o ponta-de-lança da vanguarda que se estabelece sobre as bases clássicas”. 

Mais recentemente, o antropólogo Hermano Vianna escreveu em seu blog que “a arte de Amud se equilibra entre o horror e a promessa/profecia de redenção”; a cantora Mônica Salmaso, ao divulgar os vídeos que fizera com Thiago para sua série “Ô de Casas”, observou que ele “é profundamente religioso e ateu, inquieto, denso e leve”; e Guinga ousou a caracterização mais insólita da música de seu parceiro: “parece um carneiro de cinco patas”.  

 A densa imprevisibilidade de suas letras, harmonias, melodias e arranjos renderam ao artista, na época do lançamento de O cinema que o sol não apaga, as seguintes palavras de Caetano Veloso publicadas na Folha de São Paulo: “Thiago Amud escreve letras incrivelmente bonitas e melodias desconcertantes amparadas por orquestrações complexas e bem-compostas, escritas por ele mesmo (modernas, inteiradas do que tem acontecido com a música, mas principalmente sentidas fundo e muito pessoais).” 

A orquestração da faixa título do álbum de Caetano Meu Coco foi escrita por Thiago. Na ocasião, o tropicalista baiano declarou que ele é um “jovem criador carioca cuja existência diz tudo sobre a veracidade do amor brasileiro pela canção popular.” 

Milton Nascimento e Simone Guimarães, Ana Carolina e Sérgio Mendes, os grupos vocais MPB-4 e Garganta Profunda, Alcione e Leila Pinheiro interpretaram obras de Amud, mas contar sua história sem passar pela de seus companheiros geracionais seria incompleto. 

Por exemplo, ele idealizou o Coletivo Chama, grupo de oito músicos para o qual assinou, a quatro mãos com Ivo Senra, os arranjos do concerto Coletivo Chama canta Mário de Andrade, especialmente encomendado pela Funarte para a XXI Bienal de Música Contemporânea de 2015, e do disco Todo Mundo é Bom de 2016. Os membros do Coletivo também apresentaram, em diversas capitais, ciclos de shows/debates inspirados em poetas brasileiros, dividindo o palco com atores como Julia Lemmertz, Paulo Betti, Clarice Niskier e Emílio de Mello.

Vale mencionar ainda as atuações de Thiago como arranjador do disco Mundo Afora: Meada de Ilessi (lançado pela Rocinante) e diretor musical do show Iara Ira de Duda Brack, Juliana Linhares e Julia Vargas (um dos melhores de 2016, segundo O Globo), além das colaborações com diversos nomes das novas cenas musicais carioca e belo-horizontina.

Como afirmou o compositor e ensaísta José Miguel Wisnik na contracapa de São, “Thiago Amud está no meio do redemunho do mundo, de cujas sombras extrai potências luminosas com ânimo aguerrido.”

São

Thiago Amud

R012 | novembro 2021

O cinema que o sol não apaga

Thiago Amud

R001 | junho 2018