Sergio Krakowski

   De um pandeirista carioca, talvez sejam esperadas coisas diferentes das que Sergio Krakowski faz. 

   Em suas mãos, o pandeiro, sem deixar de ser ele próprio, vira surdo, rum, tamborim e bateria eletrônica; trama polirritmias, borda contrapontos e interfere nas harmonias. 

   Krakowski vem criando toda uma poética nucleada nesse tradicional instrumento. Uma poética: um discurso coeso e aberto a riscos que, ao longo dos anos, multiplica suas linhas de investigação e se desdobra nos mais diversos trabalhos. 

   O pandeirista, enquanto participava, no início dos anos 2000, do renascimento do bairro carioca da Lapa como reduto do samba, se interessava pelo funk e estabelecia parceria com o DJ Sany Pitbull. 

   Naquela quadra, Sergio foi um dos criadores de um grupo que abordava o choro com abrangência estilística, mirada contemporânea e, por vezes, pegada iconoclasta: o Tira Poeira, que formou entre 2002 e 2005 com o bandolinista Henry Lentino, os violonistas Caio Márcio e Fábio Nin e o saxofonista Samuel de Oliveira. 

   O Tira Poeira lançou dois álbuns pela Biscoito Fino, apresentou-se com nomes como Maria Bethânia (no show Brasileirinho), Lenine, Zélia Duncan, Olivia Hime, Francis Hime, BNegão, Beth Carvalho e Hamilton de Holanda, apareceu na TV e tocou em eventos como o TIM Festival e o Projeto Pixinguinha. 

   Entre 2005 e 2006, Sergio ministrou workshops de percussão em Milão, Londres, Brighton, Montpelier, Perpignan, Amsterdam, Stockholm, Barcelona, Berlim e Paris. A originalidade de sua técnica tornava-se perceptível também fora do Brasil.

   Enquanto isso tudo acontecia, nosso ritmista se tornava Bacharel e Mestre em Matemática pela UFRJ. 

   A profundidade de sua paixão pelos dois campos (a Música e a Matemática) o levou, por exemplo, a usar recursos musicais para desenvolver um trabalho de ensino lúdico de matemática em 2004, no projeto social CEASM na favela da Maré, e a atuar, ao longo de 2007, como pesquisador do laboratório de música computacional Sony / CSL, em Paris, desenvolvendo um sistema que utiliza o ritmo como interface entre o músico e o computador. 

   Essa confluência levou Sergio ao doutorado em Computação Musical, no qual se dedicou ao desenvolvimento de softwares que permitem que o pandeiro controle a projeção de vídeos, a geração de loops e efeitos, estabelecendo um diálogo em tempo real entre percussionista e máquina. 

   Os projetos The Chunk e Talking Drums nasceram daí. 

   The Chunk, grupo de pandeiro, sopros, bandolim e eletrônica dedicado a promover uma síntese do choro com o funk, chegou a se apresentar, entre 2009 e 2010, com nomes como Elza Soares, Carlos Malta, Pedro Luis e Chico César; foi acolhido pelo Circo Voador no Festival de Cultura Digital; e teve lançamento digital pela Biscoito Fino. 

   Na Downbeat Magazine USA, o crítico John Murph escreveu sobre The Chunk: “nas mãos virtuosas do percussionista, o pandeiro oferece um mundo de fascinantes ritmos, ricas texturas e muito groove. Ele apresenta composições sedutoras, um senso afiado de dinâmica e demonstra uma ótima percepção de espacialidade que confere à sua música uma profunda riqueza sonora, além de possuir um alto nível de controle do seu instrumento, priorizando suspense ao invés de rapidez supérflua”

   Talking Drum, trabalho solo que já apresentou no Museu Guggenheim de Bilbao (Espanha), nos clubes nova iorquinos The Stone, Drom e Le Poisson Rouge, no Skandic Hotel (Suécia) e no Circo Voador, consiste numa investigação sobre os limites entre música e fala, buscando, em última instância, usar a tecnologia para fazer o pandeiro falar.

   Música e fala: canção. Sergio colaborou com a cena de cancionistas que surgia, sobretudo no Rio, nas duas primeiras décadas do novo século. Projetos como Sonâmbulos (que, em 2008, foi atração do bar Semente, onde se juntava a Edu Kneip, Mariana Baltar e Thiago Amud) e Radial Sul (série de saraus que, em 2010, eram transmitidos ao vivo pela internet diretamente de sua casa) exemplificam essa vertente, que mais adiante desembocaria no Coletivo Chama (2012-2017, com Amud, Renato Frazão, Thiago Thiago de Mello, Pedro Sá Moraes, Fernando Vilela, Ivo Senra e Cezar Altai), com o qual gravaria o álbum Todo mundo é bom (2016) e produziria centenas de edições do programa Rádio Chama para a Rádio Roquette Pinto. 

   Mas na jornada de Sergio nada segue em linha reta. Um dos frutos mais representativos de seu mergulho na nova canção brasileira foi justamente a direção de produção do disco de uma cantora italiana: Origem é giro, de Cristina Renzetti, de 2011, com repertório de autores como Amud, Kneip, Armando Lôbo e Kiko Dinucci. 

   A produção fonográfica autoral de Krakowski é inaugurada em 2012: Carrossel de Pássaros contou com as participações de virtuoses como Yamandú Costa, Marcos Suzano, Gabriele Mirabassi e Mário Laginha. Para que o caráter cíclico do álbum (de estrutura zodiacal) se realizasse plenamente, o músico ativou o modo-programador e criou o site Carrossel de Pássaros.  

   As liberdades que Sergio sempre se permitiu o aproximaram do jazz contemporâneo: trabalhou com os pianistas Tigran Hamasyan e Gonzalo Rubalcaba, com a clarinetista Anat Cohen, com o guitarrista Nelson Veras, com o percussionista Cyro Baptista e, finalmente, criou em Nova Iorque (onde morou entre 2013 e 2020), um trio com o pianista Vitor Gonçalves e o guitarrista Todd Neufeld.

   A Fundação da Ilha (2016), o primeiro disco do Sergio Krakowski Trio, registra sua imersão no universo das modulações métricas – fator estruturante da música dos batás da santeria cubana, aqui aplicado sobre repertório de lavra própria.   

   Especulações matemáticas puras e experimentações rítmicas lidam, ambas, com números. Mas na música, o número pulsa. Talvez por isso, o pandeirista volte sempre ao samba. 

   Lançado aqui na Rocinante, Mascarada, o segundo trabalho do Trio, é todo composto por sambas do lendário Zé Keti. 

   Jards Macalé se junta, em violão e voz, ao grupo, numa fricção de estilos ásperos em torno de um repertório clássico. 

   É Sergio Krakowski, sempre fazendo coisas diferentes das que se esperam de um pandeirista carioca.

 

Fotografia: Aline Müller