Jards Macalé

Desafinar o coro dos contentes parece ter sido tarefa que o carioca Jards Macalé assumiu para si. Quando pedimos a delicadeza, ele nos traz o ruído; quando o esperamos delirante, lá vem ele reverente, sempre como se dissesse: Eu só faço o que quero – aliás, título de sua biografia escrita por Fred Coelho.

Esse artista desorienta quem observa a cultura a partir de categorias como “gêneros”, “movimentos”, “nichos”. Senão, vejamos: bastaria dizer que ele foi aluno de Guerra-Peixe, Peter Dauelsberg, Turíbio Santos e Esther Scliar para que se pensasse que estamos falando de um erudito. Mas se lembrássemos que ele foi violonista do Grupo Opinião, que compôs com Vinícius de Moraes e que Elizeth Cardoso, Nara Leão e Clara Nunes gravaram canções suas, talvez nos parecesse correto situá-lo entre os nacionalistas de esquerda da MPB que vicejou entre bossa nova e tropicália. 

Acontece que o apartamento de sua família no Rio, onde se hospedava Maria Bethânia, recém-chegada da Bahia e então produzida por ele, passou a ser frequentado por Caetano Veloso, Gal Costa, Hélio Oiticica e Torquato Neto pouco antes da eclosão do movimento que mudaria os rumos da cultura brasileira. Então Macalé, participante daqueles debates, teria sido um tropicalista? 

Aqui mais uma vez ele nos desconcerta, pois seu happening tropicalista (a interpretação de Gotham City, parceria com Capinam, no IV FIC da TV Globo, com arranjo explosivo de Rogério Duprat) aconteceu em 1969, quando o movimento já chegara ao fim e Caetano e Gilberto Gil partiam para o exílio em Londres. O público retribuiu a provocação de Macalé com uma das maiores vaias da história dos festivais. Talvez aquele evento tenha sido o marco inaugural daquilo que alguns passaram a chamar de “pós-tropicalismo”.

Nessa fase, entre 69 e 72, o músico grava seu primeiro compacto simples, elabora com o guitarrista Lanny Gordin os arranjos de base do disco Legal de Gal (que pouco depois transformaria “Vapor Barato” de Macalé e Waly Salomão num hino hippie, regravado décadas depois pelo Rappa), produz o show Meu nome é Gal, dirige em Londres Transa, um dos álbuns mais importantes da carreira de Caetano, e lança seu primeiro LP, Jards Macalé

Artífice, ao lado de Lanny e do baterista Tutty Moreno, de uma linguagem que, calcada em seu violão crispado, hibridiza lamento, rock, sussurro, guturalidade, blues e samba-canção; parceiro de Capinam, Torquato e Waly (com quem, após o sucesso do “Vapor”, criaria a “linha de morbeza romântica”), frequentador assíduo e emblemático do Posto 9 da Praia de Ipanema (o point dos desbundados naqueles verões), Macalé se tornou um dos maiores nomes da contracultura brasileira. Acontece que ele parece também alargar o conceito de contracultura.

Seus trabalhos subsequentes, Aprender a Nadar (1974) e Contrastes (1977), reafirmando a pegada vanguardista, começam a arriscar uma revisão do passado de nossa música popular (com releituras de Ismael Silva, Miguel Gustavo, Herivelto Martins, Paulo da Portela etc.) e nos fornecem mais uma peça do quebra-cabeça de sua persona: o malandro sambista, que vai excursionar com o rei do samba de breque Moreira da Silva e na década de 80 surge com Quatro Batutas e um Coringa, em que interpreta Paulinho da Viola, Nelson Cavaquinho, Lupicínio Rodrigues e Geraldo Pereira. 

A desenvoltura de seu trânsito entre as diversas tribos da MPB já ficara patente no ano mais truculento da ditadura (1973), quando foi o organizador do espetáculo O Banquete dos Mendigos em celebração da Declaração Universal dos Direitos Humanos, realizado no MAM. Macalé reuniu, entre outros, Gal, Paulinho, Chico Buarque, Milton Nascimento, Edu Lobo e Raul Seixas. O álbum duplo resultante do espetáculo, gravado clandestinamente, só foi liberado pelos militares em 1979 quando o organizador do Banquete, sempre anárquico, presenteou o General Golbery com um exemplar. 

Episódios como o “lançamento” de Aprender a Nadar sob o vão central da Ponte Rio-Niterói (em referência indireta às ameaças de afogamento que sofria de um agente da repressão), o hábito de fazer shows em presídios e sanatórios, a detenção sob acusação de pornografia durante excursão com Morengueira, as demonstrações de incompatibilidade com o comercialismo das gravadoras e a visita performática ao então presidente Figueiredo no hospital acabaram rendendo ao compositor o epíteto de “maldito”, veementemente negado (“maldito é a…!”).  

Filho de uma época em que os diversos campos artísticos dialogavam assiduamente, Macalé desenvolveu também uma relação profunda com o cinema. Ele não apenas participou da criação das trilhas sonoras dos clássicos Macunaíma de Joaquim Pedro de Andrade, O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro de Glauber Rocha e Amuleto de Ogum de Nelson Pereira dos Santos, como atuou nesse último e em Tenda dos Milagres (do mesmo diretor). Mais tarde voltaria a atuar em curtas-metragens e no longa Big Jato de Cláudio Assis, além de ser o mote dos documentários Jards, um morcego na porta principal de Marcos Abujamra e João Pimentel e Jards de Eryc Rocha.

Depois de jogar xadrez na Sala Cecília Meirelles com John Cage (!!!), cantar com Jackson do Pandeiro, dividir projetos com Naná Vasconcelos (o álbum Let’s Play That), com Guinga, Zé Renato e Moacyr Luz (o show/DVD Dobrando a Carioca) e com vários artistas da cena recentíssima da canção brasileira (Juçara Marçal, Ava Rocha, Kiko Dinucci, Tim Bernardes e outros que surgem em Besta Fera, de 2019), Macalé amplia ainda mais o rol de seus parceiros, dividindo pela primeira vez um trabalho com o lendário pianista e compositor João Donato: Síntese do Lance – lançado por nossa gravadora Rocinante. Para o crítico Tárik de Souza, é “o encontro de dois iconoclastas de estirpe”.

A propósito, uma de nossas próximas empreitadas será um disco de Jards Macalé com o trio do pandeirista Sergio Krakowski, todo feito de interpretações “free líricas” de sambas de Zé Keti.  

E esperamos poder apresentar ao público outros tantos macalés – tortos, soltos, loucos.