João Donato

Este é o nome de um som, de uma atmosfera, de um ritmo. Seus atributos: naturalidade, essencialidade, simplicidade – feito o canoeiro que, descendo o Rio Acre, assobiava uma melodia e, sem saber, insuflava a primeira emoção musical no menino de sete anos sentado ali na beira. Quatro décadas depois, já crescido, o sempre menino pediria a Gilberto Gil uma letra para aquela melodia guardada no coração há tanto tempo que dela já se apropriara. “Beira do mar/Lugar comum/Começo do caminhar/Pra beira de outro lugar…”

Compositor, pianista, acordeonista e arranjador acreano, João Donato é presença determinante na música brasileira desde os anos 50, quando, já atuante no cenário carioca (entre regionais de choro, grupos vocais, rádios e boates), foi um dos artífices da bossa nova. 

Com os jovens amigos Antonio Carlos Jobim, João Gilberto e Johnny Alf, ele compartilhava o interesse pelas harmonias inventivas do jazz, a vontade de criar um tipo diferente de samba e certo inconformismo em relação ao estilo melodramático de boa parte das canções do período. 

Mas em 1959, pouco depois da guinada modernizadora que ajudara a projetar começar dividir as águas, Donato (que de João Gilberto era parceiro e por Jobim tivera o primeiro disco produzido) mudou-se para os EUA, onde integrou as orquestras de Mongo Santamaría, Johnny Martinez, Cal Tjader e Tito Puente. Resultado: sua bossa foi se deixando impregnar de sotaque latino. 

Durante um esboço de regresso ao Rio de Janeiro em 1962, foram gravados Muito à vontade e A bossa muito moderna. Na contracapa do primeiro, um texto não assinado definia, em termos curiosos, o jeito “donatiano” de tocar, observando o “jeu originalíssimo da mão esquerda, que é para a direita aquilo que o Dr. Watson era para Sherlock Holmes: um auxiliar valioso e um complemento indispensável”; e ressaltando o “generoso sentido rítmico, que faz ‘balançar’ irresistivelmente à menor frase.” 

  O Brasil ainda teria que esperar dez anos para ter esse balanço definitivamente de volta, pois o pianista fixou-se novamente nos EUA, onde trabalhou com Stan Getz, Chet Baker, Sérgio Mendes, lançou Bud Shank, Donato e Rosinha de Valença, Piano of João Donato: The new sound of Brazil (orquestrado por Claus Ogerman), A bad Donato (co-arranjado por Eumir Deodato) e Donato/Deodato. Vale lembrar que o psicodélico A bad Donato ganhou hype e em 2007 entrou na lista dos “100 melhores álbuns da música brasileira” elaborada pela revista Rolling Stone.

De volta ao Brasil em 1973, o músico ouviu um conselho do cantor Agostinho dos Santos (“faça um disco cantando”) e prontamente o seguiu, distribuindo melodias entre letristas (o irmão Lysias Ênio, Paulo César Pinheiro, Geraldo Carneiro etc.) e fazendo Quem é quem – outro que figuraria na tal lista dos “100 melhores”. 

Em Quem é quem salta aos ouvidos a acentuação do elemento afro-baiano, matizando mais ainda o suingue híbrido do acreano. Aliás, Gal Costa, por volta dessa época, tornou-se uma de suas principais intérpretes, chegando a entregar a ele a direção musical do show Cantar (1974); a parceria profícua com Caetano Veloso foi inaugurada; e, dos doze temas do fundamental Lugar comum (1975), nada menos que oito ganharam letras de Gil, que passou a ser parceiro dos mais assíduos.

Como vemos, foi preciso que chegasse a década de 70 para que Donato (cultuado há muito pelos “iniciados”) aparecesse como autor de um dos cancioneiros mais coesos da MPB; e, além disso, se espraiasse de formas variadas em trabalhos de inúmeros cantores. Nos créditos de gravações setentistas de, por exemplo, Alaíde Costa, Clara Nunes, Emílio Santiago, Fagner, Milton Nascimento, Nana Caymmi, Nara Leão e Os Tincoãs, vira e mexe vamos topar com seu nome orquestrando, tocando piano, órgão ou até mesmo – pasmem! – trombone. 

Os diversos caminhos abertos estimularam a imaginação do músico, que em 1977 idealizou álbum triplo experimental e coletivo: Gozando a existência. Uma lista impressionante de colaboradores embarcou no sonho: de Gal a Vinícius de Moraes, de Alaíde a Djavan, de Erasmo Carlos a Dori Caymmi, de Dominguinhos ao Quarteto em Cy, de Beth Carvalho a Nelson Angelo e a Jackson do Pandeiro. As sessões no estúdio principiaram e avançaram, até que o clima de festa e liberdade desagradou à gravadora, que engavetou o que considerou “exótico”. O que sobreviveu a essa poda corporativa só poderia ser ouvido em 2018.  

Na década de 80, apesar do rol de parceiros não parar de crescer (Abel Silva, Cazuza, Chico Buarque, Martinho da Vila, Moraes Moreira) e de criações suas alcançarem sucesso em vozes como as de Gal (sempre), Ângela Rô-Rô e Zizi Possi, a discografia do compositor se resume ao registro ao vivo de uma série de odes instrumentais à musa de então: Leilíadas (1986).  

Tudo se transformou a partir de Coisas tão simples de 1996. Desde então, incansável, ele já lançou mais de 20 CDs – de inéditas ou regravações; de estúdio ou ao vivo; acústicos ou eletrônicos; de duo (com o filho Donatinho ou Joyce, com Paulo Moura ou Paula Morelenbaum), quarteto (ao lado de Carlos Lyra, Marcos Valle e Roberto Menescal) ou solo. Isso para não falar nos songbooks dedicados a sua obra autoral (o livro e os discos – um deles da cantora japonesa Lisa Ono), no DVD Donatural, na turnê com o cubano Chucho Valdés… 

Fato é que neste século XXI, proliferam reverências ao artista. Exemplos, colhidos em vasta lista, são a criação do Instituto João Donato; a outorga de um Grammy especial à Excelência Musical; de outro pelo melhor álbum de jazz latino de 2010 (Sambolero); uma minissérie documental; uma Usina de Arte batizada com seu nome em Rio Branco; e os tributos no Teatro Municipal do Rio de Janeiro e no Rock in Rio, onde evidenciou-se que passou a ser cultuado também por novas gerações (Céu, Fernanda Takai, Marcelo D2, Mariana Aydar, Roberta Sá etc.)

Vocês podem imaginar quão significativo é para esta jovem gravadora ter trazido a público em 2021 o LP Síntese do Lance, histórico encontro insólito de Donato e Jards Macalé, produzido por Sylvio Fraga, Marlon Sette e Pepê Monnerat.

Para dar razão ao crítico Tárik de Souza quando escreve que Síntese é o “encontro de dois iconoclastas de estirpe”, basta lembrar que ambos lançaram LPs de formas, digamos, desconcertantemente literais: em 73, Donato lançou Quem é quem do alto do Outeiro da Glória; em 74, Macalé lançou Aprender a Nadar nas águas Baía de Guanabara. 

Mas, por zelosos que sejamos de nossos vinis, a lembrança de tal coincidência não chegou a preocupar a Rocinante, afinal Donato e Macalé são agora senhores comportados. No máximo posam nus para a capa.