José Arimatéa

No Morro São José Operário, Praça Seca, Jacarepaguá, Rio de Janeiro, nasceu o trompetista e compositor José Arimatéa.

Ari, aos 9 anos de idade, começou a estudar o instrumento, mas já antes soprava furtivamente o trompete do pai — que, embora operário, era músico na igreja evangélica da comunidade. (“Ele pegou seu fá-dó, pai!”, dedurava o irmão).

Representante legítimo daquela linhagem de músicos que começaram em bandas de igreja, Arimatéa foi tocador de caixa até finalmente embicar para o ofício de corneteiro, e dele fazer destino.

Adolescente, chegou a ser ouvinte das aulas ministradas pela big band Anacleto de Medeiros, na Escola de Música Villa-Lobos, mas sua profissionalização ainda tardaria.

Foi, antes, ajudante de padeiro, ajudante de pedreiro, mecânico, eletricista e soldador, até retomar, aos 20 anos de idade, o contato com a comunidade evangélica de onde viera e, a partir dela, ingressar na Orquestra Tupi do Rio.

Os bailes chegavam a durar 5 horas, e os estilos que embalavam os dançarinos eram, basicamente… todos.

A técnica do instrumentista foi se apurando sobretudo assim, no baile, na rua, nos desafios concretos que o ofício ia lhe propondo, como por exemplo as participações no grupo de metais Brass Tracks da pianista e compositora americana Amy Dantas; no UFRJazz Ensemble; na Orquestra Criôla; na Rio Jazz Orquestra; no grupo Pé do Ouvido; na banda Vitória Régia etc.

Tocou também com Paulo Moura e J.T. Meirelles e os Copa 5, e bastariam tais credenciais para situar o trompetista num ramo nobre da música instrumental brasileira.

Já o gosto inato pela canção, por um discurso melódico de arquitetura simples e clara, encontrou polimento e aprofundamento, em Arimatéa, no trabalho como acompanhante de grandes artistas da dita MPB, com destaques para Emílio Santiago, João Donato e Leny Andrade.

Não por acaso, em 2016 foi lançado, com participação de Emílio e Leny, o primeiro álbum do instrumentista: The Music of Roberto Menescal, inteiramente dedicado às melodias de um dos artífices da bossa nova.

Quando o compositor e cantor Sylvio Fraga convidou Ari para integrar seu grupo, o trompetista conheceu (e passou a colaborar para o desenvolvimento de) um tipo de linguagem musical que, embora situada no campo da canção brasileira, “tensiona” os parâmetros rítmicos e harmônicos.

Nasceram daí os discos Cigarra no trovão, Canção da cabra (também creditado ao arranjador Letieres Leite) e Robalo nenhum, dos quais o trompete de Arimatéa é um dos elementos estruturantes.

Os encontros com Sylvio e, mais tarde, com o pianista, compositor e arranjador Marcelo Galter foram determinantes para que se alcançasse a estética peculiar de Brejo das Almas, o segundo álbum de Ari.

Lançado em 2022 por nossa gravadora Rocinante, com produção de Sylvio e Marcelo, trata-se de um trabalho que estabelece pontes entre “universos” que não se frequentam: encontram-se, lado a lado, ritmos afro-baianos, releitura de Stravinsky, elementos de jazz modal e fusion (tributários, por um lado, ao Kind of Blue de Miles Davis e, por outro lado, ao Codona de Don Cherry).

Graças a tal arrojo, após ouvir Brejo das Almas, um autor transgressor como Jards Macalé observou: “sopro elegante e inventivo, som doce e ferino”; enquanto um arranjador e maestro arrojado como Arthur Verocai afirmou que o som de José Arimatéa “é sempre uma viagem para novos caminhos”.

Na contracapa do Brejo, o guitarrista Bernardo Ramos arriscou uma das sínteses mais precisas: “Ari possui um espírito travesso: uma disponibilidade de agir em plena obediência ao instinto, ao momento, sem medir consequências, entregue ao mistério”.

Espírito travesso do menino que soprava, furtivamente, o trompete do pai.

Fotografia: João Atala