Hermeto Pascoal

Em 1936, no município de Lagoa da Canoa, veio ao mundo Hermeto Pascoal. Laudas e laudas não o definiriam melhor do que Elis Regina quando sentenciou: “Ele é um deus que nasceu nas Alagoas”.

Estima-se que o alagoano tenha composto mais de dez mil músicas. Entre as partituras do acervo descomunal constam obras para as mais diversas formações instrumentais — de instrumentos solistas a sinfonias, passando por peças para big band e música de câmara. 

A produção de Hermeto estende o arco mais amplo que um criador poderia estender sobre a história dos sons, revelando a continuidade entre o que poderíamos chamar de fenômenos “elementares” (as águas, as vozes dos animais, os barulhos extraídos do próprio corpo humano) e o estruturas “complexas” (o atonalismo e a politonalidade). Entre esses “extremos”, o folclore nordestino, o forró, o choro, a bossa, o jazz, e todo e qualquer objeto que a vontade vulcânica do improvisador deseje fazer soar. 

Ainda menino, sua musicalidade se manifestava de modos nada convencionais. Por exemplo, extraindo sons do ferro velho do avô e fabricando pífanos de cano de mamona de jerimum para conversar com os passarinhos. 

Aos oito anos, passou a tocar furtivamente a sanfona de oito baixos do pai. Quando notou que o menino levava jeito – e não só ele, mas também Zé Neto, o filho mais velho –, seu Pascoal vendeu uma vaca e comprou a melhor sanfona que pôde. Logo nasceu o duo que passou a ser chamado de “Galegos do Pascoal”, atração dos bailes da região. O “galego” mais novo já então buscava combinações diferentes entre as notas. 

Ainda adolescentes, os dois foram trabalhar na Rádio Jornal do Comércio, no Recife. Ali, Hermeto integrou o regional de choro do violonista Romualdo Miranda, irmão do lendário bandolinista Luperce Miranda e tio de Ilza, que seria sua companheira entre 1954 e 2000. 

Foi também na Rádio Jornal do Comércio que os filhos de seu Pascoal conheceram o prodigioso Sivuca – sanfoneiro e albino como eles –, com quem formaram o trio “O Mundo Pegando Fogo”. Pouco mais velho, Sivuca foi fundamental para a ampliação do repertório dos irmãos. 

Com a partida de Sivuca para o Rio de Janeiro, o trio se desfez e Hermeto passou a ser escalado como pandeirista da rádio (“Sivuquinha do Pandeiro”). Embora se saísse bem, o ofício não correspondia à sua inquietude. 

Ninguém menos do que Jackson do Pandeiro aconselhou que o rapaz botasse pé firme e permanecesse na sanfona, coisa que fez e lhe custou uma suspensão pela diretoria. Foi enviado para a filial da emissora em Caruaru, e Zé Neto para outra cidade. 

Um ano depois, ainda em Caruaru, dominando as harmonias modernas, Hermeto impressionou o cada vez mais tarimbado Sivuca, então de passagem por ali. No Recife, Sivuca se empenhou tanto na defesa do jovem insubmisso junto à direção da rádio que conseguiu que ele voltasse à capital e conquistasse um aumento de ordenado.

Quando, em 1958, muda-se para o Rio de Janeiro com Ilza, Hermeto entra para o Regional de Pernambuco do Pandeiro na Rádio Mauá, com o qual grava o álbum Batucando no Morro. Não deixa de ser curioso, para os conhecedores da carga revolucionária de sua música, perceber a organicidade com que o sanfoneiro se mescla a um grupo de choro tradicional. 

Com formação cada vez mais sólida (e fundamentalmente autodidata), é no ofício de pianista que Hermeto passa a tocar nas noites cariocas, primeiro no grupo do violinista Fafá Lemos, mais tarde na orquestra do flautista Copinha. 

O autodidatismo do multiinstrumentista merece reflexão mais profunda do que os limites deste texto permitem. Seja pela quase cegueira, que o impediu de ter contato com a leitura musical na infância, ou por outros motivos, a necessidade de se auto-educar contribuiu, e muito, para o desenvolvimento de um sistema composicional novo e complexo, aberto para a aleatoriedade dos sons do mundo.

Fato é que o músico migrou em 1961 para São Paulo e para a flauta, e com ela (e com o piano) gravou o disco do novo grupo que integrava, o Som Quatro, de sonoridade samba-jazz. Pouco depois, formou o Sambrasa Trio, que incluiu no álbum Em Som Maior, de 1965, sua composição Coalhada. O baterista do Sambrasa era Airto Moreira, a quem Hermeto se juntaria em 1966 (e a Theo de Barros e Heraldo do Monte) no Quarteto Novo, inicialmente para acompanhar o compositor e cantor Geraldo Vandré. 

O Quarteto Novo propunha um tratamento avançado do material modal nordestino, afastando-se da tendência samba-jazz dos grupos instrumentais do período e lançando-se em busca de uma forma de improvisação tipicamente brasileira, insubmissa ao que se produzia no resto do mundo. 

Falando em “resto do mundo”, diz-se que os Beatles ouviram com admiração o álbum do Quarteto Novo, enquanto aqui no Brasil o rock’n roll ainda era visto com desconfiança por setores da esquerda cultural. O ideário nacionalista levou o Quarteto a aceitar acompanhar Edu Lobo em Ponteio, a grande vitoriosa do mítico 3º Festival da Canção, e recusar acompanhar Gilberto Gil em Domingo no Parque, segunda colocada no mesmo festival.

Mas o fato de ter permanecido refratário ao pop/rock não deve ser lido como sinal de xenofobia. A ida de Hermeto para os Estados Unidos em 1969, a convite de Airto e da cantora Flora Purim, insere-o no circuito da vanguarda do jazz norte-americano. O alagoano, é claro, mais avançado que os mais avançados.

Quando foi apresentado por Airto a Miles Davis, este quis gravar todas as músicas do brasileiro, ouvindo como resposta: “não, eu vou gravar meu disco, te dou só umas três”. Miles achou graça e passou a se referir ao brasileiro carinhosamente como “albino louco”. Mais tarde o classificaria como “o músico mais impressionante do mundo”. 

Na Nova Iorque de 1970, Airto e Flora produziram Hermeto, disco de exuberância orquestral, marco zero da discografia solo daquele prodigioso desconhecido, que não contava para os músicos que aqueles eram seus primeiros arranjos, porque sabia que não iam acreditar. 

Lançado pelo selo Buddah Records, Hermeto conta com a participação de nomes como Joe Farrell, Thad Jones e Ron Carter – que, aliás, foi quem arregimentou a orquestra. 

Em Los Angeles, Hermeto participou dos álbuns Tide de Tom Jobim, Cantiga de Longe e Mendes Presents Lobo de Edu Lobo. Entrementes, foi autor e arranjador da maior parte das faixas de dois LPs de Airto: Natural Feelings de 1970 e Seeds on the Ground – The Natural Sound of Airto de 1971. 

Em 1971, Miles Davis lançou o disco Live-Evil. Nele apareceram as tais três músicas que o “albino louco” lhe oferecera: Igrejinha, Selim e Nem um talvez –  todas creditadas ao norte-americano! O brasileiro, depois de um tempo, passou a se referir ao assunto com desprendimento absoluto. Assim, por exemplo: “Se ele disse que a música era dele, então era dele”. (Relembremos: cerca de dez mil composições…)

Hermeto, que nunca desejou viver fora do Brasil, voltou em 1972 fazendo algazarra: por um lado, laureado pela Associação Paulista dos Críticos de Arte como “melhor solista”; por outro, censurado na apresentação de sua Sereiarei no Festival Internacional da Canção, devido à presença de um insólito par de instrumentos musicais levados ao palco para tocarem com a orquestra: dois porcos. Alaíde Costa, a intérprete da composição, teve o microfone cortado e o arremessou na plateia.

Sereiarei está no repertório de A Música Livre de Hermeto Pascoal, LP de 1973 que abre com Bebê, um dos maiores clássicos do mestre, e fecha com O Gaio da Roseira, composta por Seu Pascoal — pai — e Dona Divina — mãe. 

N’A Música Livre podemos ouvir o primeiro grupo de Hermeto (o baterista e pianista Nenê, o percussionista Anunciação, o baixista Alberto, os saxofonistas e flautistas Mazinho, Bola e Hamleto) e duas orquestras: uma de cordas, outra de bichos. Mais uma vez, a Associação Paulista de Críticos de Arte soube valorizar o gênio, dando a ele o prêmio de “melhor arranjador” do ano. 

Em 1976, Hermeto lançou o incontornável Slaves Mass, LP gravado na Warner americana. Entre as faixas, todas autorais, mais um clássico: Chorinho pra ele. 

A projeção internacional crescente que se sucedeu a esse trabalho proporcionaria a Hermeto eventos memoráveis, como aquele seu show no I Festival Internacional de Jazz do qual Chick Corea, John McLaughlin e Stan Getz insistiram para participar. 

Estamos falando de 1978, ano de lançamento de Zabumbê-Bum-Á, gravado com uma nova banda, na qual, além de Nenê, figuravam Itiberê Zwarg (baixo), Pernambuco (percussão), Zabelê (percussão e voz), Jovino Santos Neto (teclados), Cacau de Queiroz e Nivaldo Ornellas (saxofones e flautas). As participações de Seu Pascoal em São Jorge e Dona Divina em Santo Antônio evidenciam que o cosmopolitismo do músico nunca se deu em detrimento da matriz telúrica. É como se ele tivesse encontrado, em som, o ponto de convergência entre todas as instâncias da experiência. Uma espécie de aleph

O LP de 1979, Ao Vivo em Montreux, captura um momento de consagração desse som nordestino-universal junto ao público de um dos principais festivais de jazz do mundo. É cada vez mais perceptível que a abordagem que Hermeto faz do forró é no mínimo tão revolucionária quanto a que Astor Piazzolla fez do tango, revelando ao mundo um Nordeste profundo. Por exemplo, as ladainhas surreais que ele balbucia em Remelexo parecem com o que seria Antônio Conselheiro recebendo o dom das línguas do alto do Empire States. (O símile é maluco mas não é despropositado: o álbum de 1984, Lagoa da Canoa, Município de Arapiraca, traz uma composição sobre a Guerra de Canudos).

Vale frisar que nos anos 70 a figura nada convencional do alagoano na cena cultural brasileira ganhou nitidez incontornável. Foi-se plasmando a imagem de um Bruxo, um Mago dos Sons, ou, no dizer de Elis, que acabava de dividir com ele a noite de 79 do Festival de Montreux, um “deus nascido nas Alagoas”. 

Alguns dos discos mais arrojados lançados na década (Imyra, Tayra, Ipy de Taiguara, Orós de Fagner e Robertinho no Passo de Robertinho de Recife) foram parcial ou totalmente arranjados pelo Bruxo. Décadas depois, Hermeto diria que “a MPB precisa voltar a jogar bola”, referindo-se ao que sentia como uma retração geral da vontade de experimentação. 

Ele cobra experimentação com a moral de quem um dia transformou a própria casa no bairro do Jabour numa oficina criativa ininterrupta. Ainda antes do álbum Cérebro Magnético de 1980, começou a se consolidar, ao redor da casa de Hermeto e Dona Ilza, o grupo que o acompanhou até o início da década de 90. Foi naquelas redondezas que Itiberê criou suas filhas; que Jovino, o flautista Carlos Malta e o baterista Márcio Bahia alugaram suas casas; e era para lá que Pernambuco ia diariamente de Madureira. O grupo-família ensaiava cerca de 6 horas por dia e o mestre compunha sem parar. Era a chamada “Escola Jabour”.

Essa rotina é flagrada pelo cineasta Thomas Farkas no filme Hermeto Campeão de 1981. 

De fato, há algo de messiânico, certa atmosfera de culto em torno do Campeão – e seus músicos parecem formar um apostolado em transe de alegria. Seus concertos podem se estender por até cinco horas de duração, e nada impede que todos saiam do teatro tocando instrumentos de sopro e sigam tocando pelas ruas, dobrando esquinas, entrando em ônibus, e parte da plateia indo atrás como em encantamento. Como cantou Caetano, são os “hermetismos pascoais”.

Hermeto Pascoal & Grupo (1982), Lagoa da Canoa, Município de Arapiraca (1984), Brasil Universo (1985), Só Não Toca Quem Não Quer (1987, quando ganharam o Prêmio Sharp de Melhor Grupo Instrumental), Mundo Verde Esperança (1989, não lançado comercialmente) e Festa dos Deuses (1992, Prêmio Sharp de Melhor Disco Instrumental) – para não falarmos do filme Sinfonia do Alto Ribeira de Ricardo Lua – são ricos exemplares da comunhão do grupo. 

No álbum de 1984 encontramos, pela primeira vez, registros daquilo que Hermeto chamou de “Som da Aura”: a fixação harmônico-melódica de trechos de fala, procedimento que desenvolverá em Festa dos Deuses e em trabalhos posteriores. 

Desde a infância, a fala das pessoas, a dos bichos e a dos objetos soam, para Hermeto, música atonal – fato determinante de sua forma original de montar acordes e desenvolver harmonias. Bastaria ouvir o tema Ferragens (presente no álbum Planetário da Gávea, gravado ao vivo em 1981 e lançado 41 anos depois) para compreender a afirmação. 

Como cantaram Aldir Blanc e Guinga em Chá de Panela: “Foi Hermeto Pascoal que, magistral, me deu o dom/De entender que do lixo ao avião em tudo há tom”.

Por Diferentes Caminhos, álbum de piano solo, conquistou para Hermeto o Prêmio Sharp de Melhor Disco Instrumental de 1988. Pixitotinha, tema de abertura, foi agraciada como Melhor Música Instrumental no mesmo prêmio.

Embora sejam praticamente desconhecidas as incursões do autodidata na música sinfônica, podemos assistir no Youtube a uma gravação feita em 1986 no MASP de sua Sinfonia em Quadrinhos, com a Orquestra Jovem de São Paulo; e à interpretação da Orquestra Municipal de Campinas para a Suíte Pixitotinha, que, aliás, foi lançada pela Orquestra Sinfônica de Copenhague e chegou a ser reapresentada no Brasil pela Orquestra Sinfônica Municipal de São Paulo, sob a regência de Isaac Karabitchevsky. De outras peças, como a Sinfonia do Boiadeiro, Suíte Paulistana e a Sinfonia Berlim e sua gente, não encontramos registros.

As movimentações ininterruptas da orquestra que soa na cabeça de Hermeto se deixam apreender das mais diferentes maneiras. Por exemplo, no CD Eu e Eles, de 1999, lançado pelo selo da Rádio MEC, onde gravou todos os instrumentos. Orquestra de um homem só.

Falando em orquestra, no mesmo ano, Itiberê cria a Itiberê Orquestra Família – reunião de jovens instrumentistas ao redor de um repertório novo criado pelo baixista e alicerçado nos princípios compositivos que aprendeu na “Escola do Jabour”, da qual é o mais antigo “aluno”.

O segundo CD da Orquestra Família é o Calendário do Som. Lançado em 2005, nele foram gravadas 27 das 366 composições que Hermeto escreveu entre 1996 e 1997 (uma para cada dia, incluindo o 29 de fevereiro), como “presentes de aniversário a todos os seres humanos”.

Publicado em 1999 pela Editora Senac, o Calendário traz os fac-símiles das 366 partituras, revelando uma escrita que se funde a desenhos e comentários cheios de espiritualidade, e registrando um método de cifragem completamente original. Percebe-se como o autodidatismo levou Hermeto a caminhos onde o lúdico e o densamente estruturado não se opõem. 

Antes de a Orquestra Família esmerilhar o Calendário, Hermeto lançou em 2002 o denso Mundo Verde Esperança, homônimo do disco não lançado em 1989. Ao “núcleo duro” do grupo (Itiberê e Márcio Bahia), uniram-se o filho Fábio Pascoal na percussão, André Marques no piano e Vinicius Dorin nos saxofones e flautas, além de alguns integrantes da Orquestra Família, como Joana Queiroz (voz, clarinete e clarone), Beth Dau e Mariana Bernardes (vozes). Não por coincidência, neste álbum em que se dá o encontro dos “netos musicais” com o “avô”, 13 das 14 faixas são dedicadas aos netos biológicos de Hermeto. É o artista em meio aos frutos do tempo, olhando o futuro depois do impacto da morte de Dona Ilza em 2000. 

O encontro, numa oficina de música, com a cantora e multiinstrumentista curitibana Aline Morena resulta em casamento. Hermeto se muda para Curitiba e em 2006 grava, em duo com Aline, o CD e o DVD Chimarrão com Rapadura. Mais tarde, em 2010, o duo lança Bodas de Latão

Em 2008, Hermeto desfere um dos golpes mais libertários contra a lógica empresarial das majors do mercado de música, ao declarar em seu site, num documento escrito a mão “que a partir desta data libero, para os músicos do Brasil, e do mundo, a gravação em CD de todas as minhas músicas que constam na discografia deste site [www.hermetopascoal.com.br]. (…) Aproveitem bastante.”

Tal atitude vem de encontro à tentativa sistemática de catalogação de toda a sua obra empreendida por Jovino Santos Neto, que desde que saiu do grupo, em 1993, trabalha para disponibilizar as partituras das milhares de composições. 

Milhares, em torrente criativa que não cessa. E vêm novos álbuns: em 2017, o duplo No Mundo dos Sons (Sesc São Paulo), com a mais recente formação de seu grupo, e Natureza Universal (Scubidu Music), apresentando peças para big band; em 2018, também pela Scubidu Music, Hermeto Pascoal e Sua Visão Original do Forró, gravado em 1999.

A Rocinante não consegue mensurar o que é lançar um trabalho inédito de Hermeto Pascoal. 

Pra Você, Ilza é a reunião de 13 das 198 composições que escreveu num caderno todo dedicado à companheira. Partindo da partitura bruta, o Campeão criou todos os arranjos no estúdio, para seu grupo que, além de Fábio Pascoal, André Marques e do eterno Itiberê, conta com Ajurinã Zwarg na bateria e Jota P. no sax. 

“Tudo o que fiz, tudo o que faço, tudo o que continuo fazendo, a Dona Ilza está maravilhosamente presente, pra me ajudar de todas as maneiras”. 

Dito isto, como o Brasil e o mundo devem a Dona Ilza!

Fotografia: João Atala