Desde a primeira infância de Gabriele Leite já se poderia adivinhar sua vocação. Bastaria vê-la emulando o toque do violão numa vassoura.
A história da paulista de Cerquilho, nascida em 1997, filha de uma costureira e de um mecânico, é a de uma total doação à música, à pesquisa, à interpretação.
Gabriele, que aos 6 anos de idade ganhou um violão do avô, cresceu e está inscrevendo seu nome no rol dos maiores instrumentistas brasileiros.
Foi num projeto social, o Projeto Guri, que a menina começou seu estudo formal de música: das primeiras aprendizagens sobre postura à iniciação na leitura de partituras.
Daí para o Conservatório de Tatuí foi um salto. Ali, a partir dos 11 anos de idade, ela começou a se aprofundar no violão e em matérias como teoria, percepção e coral, tornando-se bolsista nos dois últimos anos de curso. De manhã, a escola; de tarde, o conservatório.
Quando, em 2016, ingressa na UNESP para cursar Bacharelado com habilitação em violão clássico, a cerquilhense já participara de concursos como o Souza Lima, já formara um duo, já tocara em camerata e já ganhava dinheiro com sua música.
Durante a graduação, a estudante foi ganhadora do Programa de Bolsas de Estudo Magda Tagliaferro, promovido pela Sociedade Cultura Artística, tornando-se aluna do Prof. Dr. Paulo Martelli.
Martelli, além de orientá-la no estudo do repertório de concursos e festivais, fez sua cabeça para morar fora do Brasil – ecoando o que Sérgio Assad dissera anos antes para a jovem violonista a cujo concerto acabara de assistir, impressionado, no Festival Assad.
O plano de ir morar nos EUA foi sendo delineado com precisão ao longo dos anos de UNESP.
Em 2018, a presença de Gabriele tornou-se incontornável para os iniciados no universo do violão clássico. Em menos de 15 dias ela venceu três dos concursos mais importantes do Brasil: Souza Lima, Musicalis e Assovio Vertentes. Instigada pelo prodígio, a Sociedade Cultura Artística convidou-a para um festival na Alemanha.
Lá, em Koblenz, além de participar e chegar à semifinal de seu primeiro concurso internacional, defendendo a “Ritmata” de Edino Krieger, Gabriele fez uma masterclass com um dos principais violonistas da atualidade, o escocês David Russell. Ao se despedir, o mestre disse à discípula: “te espero lá nos Estados Unidos”. Vê-se que o nome e os planos da musicista já não circulavam apenas entre iniciados brasileiros…
Foi decorrência natural de todo esse percurso que Gabriele tenha se tornado Mestre com Honrarias pela Manhattan School of Music. Sob orientação de Mark Delpriora, ela foi a primeira mulher preta brasileira a graduar-se na instituição.
Finalmente, depois de ter o nome incluído na lista da revista Forbes under 30 de 2021 (na primeira menção a uma violonista clássica na publicação); depois de ter conquistado o prêmio da revista Concerto na categoria jovem revelação; depois de ter sido agraciada com os prêmios Hubert Kuppel, na Alemanha, o Lillian Fuchs Chamber Music Competition e o Segovia Rose Augustine Award (ambos em Nova Iorque); depois de ter se tornado doutoranda em Performance Musical na Stony Brook University; depois de ter sido indicada pelo Consulado Brasileiro em Nova Iorque para realizar o concerto de abertura da cerimônia de posse do Brasil como integrante temporário do Conselho de Segurança da ONU; depois de ter se apresentado na abertura musical do jantar de gala do evento “Person of the year 2022” organizado pela Brazilian-American Chamber of Commerce; depois de ter se apresentado no Sesc Festival de Música de Câmara, na Sala São Paulo no Timucua Arts Foundation, Gabriele lançou Territórios, seu primeiro álbum, em 2023, pela Rocinante.
Com direção musical de João Luiz Rezende, a virtuose retomou a supracitada peça de Krieger (desvelando o que há de choro em sua estrutura), esmerilhou uma famosa canção de Villa-Lobos, celebrou Sérgio Assad e ousou reler as consagradas “Bagatelas” do inglês William Walton.
Sobre Territórios, o crítico Sidney Molina escreveu na Folha de São Paulo: “Enfrentar os standards do repertório significa arriscar-se, trabalhar os dilemas interpretativos, comparar-se aos melhores. É essa rota direta, sem desvios, que Gabriele Leite escolheu para si.”
Seguindo firme nessa rota direta, em 2024 a violonista saiu em turnê pelo Brasil, foi indicada ao Prêmio da Música Brasileira na categoria Revelação e recebeu convite para participar do Classical:NEXT.
Em 2025 foi a vez de Gunûncho, o segundo passo fonográfico da moça, com direção musical de Erika Ribeiro. O título remete ao neologismo com o qual a mãe da artista designava a mantinha de bebê da filha. Segundo a própria Gabriele, em texto escrito para a contracapa de Gunûncho, “o disco emerge dessas texturas do paninho de crochê (…); o nome sugere um movimento de encontrar novas tramas de afeto (…); a musicalidade se desobriga das narrativas amarradas, do belo estabelecido (…) e encontra seu próprio caminho de expressão”.
Essa desobrigação não se dá em detrimento do rigor. O que está em questão aqui é a singularidade, é a intimidade. E isso, neste caso, passa pela explicitação da condição feminina. Foi assim que Gabriele, ao selecionar o repertório, seguiu um critério bem específico: interpretou apenas obras escritas para o violão por compositoras mulheres que não dominavam o instrumento – as brasileiras Chiquinha Gonzaga e Lina Pires de Campos, a cubana Tania León e a escocesa Thea Musgrave. E, como licença poética, gravou pela primeira vez obra de lavra própria.
Em matéria sobre Gunûncho, a Revista Rolling Stone escreveu que Gabriele “passou anos navegando pelos códigos não escritos da música de concerto. Mas seu segundo disco (…) vem para desafiar essas convenções”.
Quanto a nós da Rocinante, temos orgulho de tomar parte nesses belos desafios.


