João Luiz

Não foi um violão o primeiro instrumento do violonista João Luiz. Foi o trompete que ele tocava, com oito anos, na banda marcial da escola. 

   Na verdade, as bases de sua formação vinham sendo lançadas desde antes. Na casa onde morava, ouvia-se tanto samba e choro que, entre dez e doze anos, o menino solava e acompanhava um repertório vasto. Não mais no trompete; ainda não no violão. 

   O cavaquinho tinha sido ensinado pelo primo, que vira e mexe colocava o menino para se apresentar nos conjuntos que montava, com direito a estripulias como solar Brasileirinho com o instrumento nas costas. Paralelamente, João Luiz estudava teoria e solfejo na Ordem dos Músicos do Brasil, com a lendária professora Ondina T. Magalhães. 

   O interesse pelas harmonias mais elaboradas do jazz e de certa MPB decorreu naturalmente desses primeiros anos, levando-o a aprofundar-se no instrumento que passou a tocar com treze anos: o tal do violão. 

   Logo começou a desbravar Radamés Gnatalli e Villa-Lobos, e a tirar de ouvido peças clássicas, quase furando Segovia na vitrola. Resultado: ingressou aos dezesseis anos na FAAM, onde estudou com Henrique Pinto, seu grande professor. 

   Um dos colegas de João Luiz nas aulas com Henrique era Douglas Lora, com quem formou, ainda na faculdade, o duo que viria a se tornar um dos mais importantes da cena concertista pós-Duo Assad: o Brasil Guitar Duo. 

   Premiado no VII Concurso Souza Lima; destacado como grupo camerístico no Festival Koblenz na Alemanha (quando os dois músicos tiveram aulas com Hubbert Kappel); beneficiário de uma bolsa de estudos para estudar com Fábio Zanon no Festival de Inverno de Campos do Jordão (onde recebeu o prêmio MOAD), o Brasil Guitar Duo — ainda identificado como João Luiz e Douglas Lora — estreou em CD com Duo de Violões (2001).

   Em 2006, a vitória, entre mais de 400 inscritos, no Concert Artists Guild International Competition, rendeu aos rapazes um contrato de dois anos para recitais na Europa, no Japão e nos Estados Unidos (em locais como o Carneggie Hall e Concertgebouw). 

   Em 2007, eles realizaram Bom Partido, CD que demonstrou a amplitude de seu arco de interesses musicais: de Marlos Nobre a Djavan. Aliás, o cancionista alagoano inspirou pelo menos duas peças de João Luiz: Fantasia sobre um tema de Djavan, presente no álbum coletivo Movimento Violão Ano III (2006) e Djavan’s Portrait, gravada pelo Duo em Ghosting (2014).

   Essa abertura à música dita popular renderia em 2011 o disco Zanzibar, inteiramente dedicado à obra de Edu Lobo, e em 2023 o Plays Gismonti — se é que esse autor pode ser situado no campo da música “popular”. 

   Mas antes, em 2008 e 2009, a gravação da obra integral para dois violões de Mario Castelnuovo-Tedesco, pelo célebre selo Naxos, consagrou definitivamente o Duo entre os pares e na imprensa especializada. Mais adiante, a mesma Naxos lançaria Leo Brouwer — Music for Two Guitars (2016) e The Book of Signs (2018), gravado com a Delaware Symphony Orchestra. 

   Ao longo de todos esses anos de Brasil Guitar Duo, João Luiz vinha se desdobrando em outros projetos, grupos, discos. A esse respeito, gostaríamos de destacar a participação na última formação do Violão Câmara Trio, ao lado de Douglas Lora e do mestre Henrique Pinto, originando o CD Concerto a Tre (2003); a permanência, entre 2002 e 2009, no célebre Quaternaglia Guitar Quartet, com o qual gravou os discos Presença (2004) e Estampas (2010); a criação do Trio Virado, com a flautista Amy Porter e o violista Juan-Miguel Hernandez, dedicado a obras contemporâneas da música de câmara latino-americana (como as inéditas de Sérgio Assad, Frederic Hand e Leo Brouwer registradas em Mangabeira, de 2015); a gravação, com o bandolinista Danilo Brito, de Esquina de São Paulo (2021). 

   Em 2008, o violonista se mudou para Nova Iorque, onde retomou os estudos. Após mestrado na Mannes College of Music e doutorado na obra para violão de Camargo Guarnieri aliás, parcialmente gravada no álbum solo Central Guitar de 2021 , ele se tornou diretor de música de câmara e violão do CUNY Hunter College em NY e professor de violão e música de câmara da Yale School of Music. 

   Em reconhecimento a seu trabalho como pesquisador, divulgador e intérprete da música latino-americana contemporânea, foi agraciado com o prestigioso Feliks Gross Award, em 2023. 

   A veia composicional de João Luiz também vem se dilatando: Recife, concerto de harpa, estreou em 2019 com a Orlando Philharmonic Orchestra; MadrigAfro, concertino para violão e cordas, estreou em 2022, em unidades do Sesc SP; em 2024, Saravá, para quarteto de cordas e violão, peça encomendada pela TUCCA e pelo D-Composed Collective de Chicago, recebeu o prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) na categoria melhor estreia de obra. Saravá tinha sido apresentada em novembro daquele ano na Sala São Paulo, em comemoração ao Dia da Consciência Negra. 

    Voltemos a 2023. A violonista Gabriele Leite veio gravar Territórios aqui na Rocinante. A tiracolo, ela trouxe, para dirigir esse debut fonográfico, o compositor de MadrigAfro, obra de que ela tinha sido a solista, à frente da São Paulo Chamber Soloists. Logo o convidamos para gravar um novo disco. Assim surgiu Os Guardiões da Magia: Leo Brouwer por João Luiz, em que o universo do genial compositor cubano é revisitado pelo paulista. 

   Depois de participar da estreia brasileira da Gismontiana de Brouwer; de tocar em Havana, ao lado de Yo-Yo Ma e Carlos Prieto, nas celebrações de seu 75° aniversário; de ser indicado ao Grammy Latino em 2016, pelo supracitado Music for two guitars, em que o Brasil Guitar Duo interpretou sua obra completa para dois violões, João Luiz descortina o período mais recente da obra desse que é um dos mais inventivos autores de música para violão dos séculos XX e XXI.

   Duas das peças que compõem o repertório de Os Guardiões da Magia foram dedicadas por Leo Brouwer ao intérprete. Quem entende do riscado sabe que isso bastaria para atestar a importância do nome de João Luiz na história do violão brasileiro de concerto.