Nelson Angelo

Belo Horizonte, 2019. Caetano Veloso durante o show Ofertório: “Vou cantar uma música que eu considero uma das músicas mais lindas que jamais existiram na história do mundo. É o misticismo de São Francisco misturado com o de Buda e Lao-Tsé.” E cantou “Fazenda”. Depois de ser acompanhado pelo uníssono da plateia e terminar ovacionado, Caetano bradou: “Viva Nelson Angelo!” 

Algumas canções de beleza e profundidade insondáveis escritas por Nelson se tornaram clássicos do repertório setentista de Milton Nascimento: além de “Fazenda”, podemos lembrar de “Simples”, “Canoa, Canoa” (com letra de Fernando Brant), “Sacramento” e “Testamento” (ambas letradas pelo próprio Milton). 

Mas há outras, mais de uma centena delas – muitas ainda inéditas, outras registradas em seus próprios álbuns e nos de intérpretes como Alaíde Costa, Boca Livre, Olívia Hime, Sergio Mendes, Simone, Tom Jobim… Sim, ninguém menos que o maestro soberano gravou “Tiro Cruzado” (parceria com Márcio Borges) em Miucha & Antônio Carlos Jobim, num duo com a cantora.

Compositor, guitarrista, violonista, arranjador e cantor mineiro, Nelson Angelo iniciou carreira nos palcos belorizontinos em 1966, quando travou amizade com o jovem Milton. 

Por volta dessa época, começa a surgir naquela cidade uma atmosfera de congraçamento entre jovens músicos que, curtidos no barroco mineiro, deixaram-se encantar pelas harmonias da bossa nova e do jazz, pelo que de mais novo se fazia no rock e pelos sonidos latinoamericanos. O Brasil e o mundo chamariam de Clube da Esquina as fusões aí geradas, embora saibamos que os sócios do tal Clube apenas o eram graças a seu arejamento, à sua abertura – e não a uma adesão às diretrizes de um movimento. 

Pois foi com tal espírito que Nelson, no fim dos anos 60 e ao longo dos 70, enquanto era um dos artífices da sonoridade dos principais trabalhos desse “não movimento”, atuava na linha de frente de outras empreitadas coletivas que, sob certo ponto de vista, talvez possam também “constar nas atas” do Clube. Pensamos aqui nos grupos Quarteto Livre (que formou com Geraldo Azevedo, Naná Vasconcelos e Franklin da Flauta); A Tribo (no qual, ao lado de Joyce, Naná, Novelli e Toninho Horta, lançou compacto pela Odeon); nos LPs Luiz Eça e a Sagrada Família (gravado no México com Eça, Joyce, Naná e Maurício Maestro), Nelson Angelo & Joyce (que mais tarde ganharia status de cult), Naná Vasconcelos, Nelson Angelo & Novelli (gravado na França) e Beto Guedes, Danilo Caymmi, Novelli e Toninho Horta (primeiro disco de todos os quatro, do qual foi o produtor). 

No mesmo período, imprimiu sua pegada de instrumentista em álbuns de nomes como Chico Buarque, Dori Caymmi, Edu Lobo, Elis Regina, Gonzaguinha, Johnny Alf, Luiz Gonzaga, Nana Caymmi, e até no disco brasileiro de Sarah Vaughan. Isso pra não falar nos muitos concertos com Egberto Gismonti, de cujo grupo Academia de Danças foi membro. 

Já nos anos 80, com idêntico espírito gregário, ele integrou A Turma do Funil com Francis e Olívia Hime, Miúcha, Danilo Caymmi, Novelli e Cristina Buarque, e participou do Clube do Samba, idealizado por João Nogueira. 

Desses tempos até este em que ora nos encontramos, a atividade da composição sempre balizou a jornada do artista: apenas com Cacaso ele escreveu mais de 50 parcerias, fora as tantas que fez com Milton, Márcio, Brant, Ronaldo Bastos, Murilo Antunes, Ana Terra e – postumamente – Pixinguinha… Sim, a letra de “Um a Zero” é sua, e foi gravada em dueto com Chico Buarque no disco A vida leva

Pois foi a uma discografia em que, além de A vida leva, figuram Mineiro pau, Violão e outras coisas, Cateretê, Mar de Mineiro, Minas em meu coração, Times Square, Trilha sonora de uma viagem, Nelson Angelo 2018, Vitral do tempo e a coletânea Tempos Diferentes: O Maravilhoso Mundo Musical de Nelson Angelo, que nossa Rocinante teve a alegria de acrescentar O Pensador, em 2019. Nele, o autor aborda, de modo insuspeitado, canções de diversos períodos de sua carreira.

O crítico Antônio Carlos Miguel escreveu para o site AmaJazz que O Pensador “tem lugar garantido na lista de melhores de qualquer ano, na obra de Nelson ou da música criativa mundial”.

O vigor do criador permanece se desdobrando em projetos atrás de projetos. Entre eles, nas letras das dez faixas de Rio da Lua, trabalho que Lô Borges – o melodista – lançou em 2019; nos Cantos Espirituais lançados nas plataformas digitais em 2021 (em que musicou dez poemas do gaúcho Carlo di Jaguarão); e na adaptação cinematográfica desses Cantos – documentário homônimo produzido pela Data Pictures e ainda inédito no Brasil, embora já integrante da programação de vários festivais internacionais: ARRF Barcelona International Awards, Niagara Falls International Short Festival, International Sound Video Awards (Praga), Austin International Art Festival, ARFF Berlin International Awards, Golden Deer Film Festival, Brighton Rocks Film Festival, New York Movie Awards, San Francisco Indie Short Festival, Rome Music Video Awards e Munich Music Video Awards. 

– Viva Nelson Angelo! – bradamos, em uníssono, com Caetano.

Photo: João Atala