Luizinho do Jêje

 “Comecei na música já dentro da barriga de minha mãe, ouvindo os toques da minha nação Jêje: o sató, a hamunha, o ijexá, o agueré — e quando eu nasci mesmo ficou mais forte o negócio porque eu vi os toques, vendo os ogãs tocando”.

   Não se pense que Luizinho do Jêje levou de pronto da barriga da mãe para o Aguidavi do Jêje os satós, hamunhas, ijexás, aguerés. Antes, o menino ouviu os vinis do irmão, frequentou os sambas juninos (o chamado samba duro), debutou no Olodum, trabalhou com Jauperí, Elpídio Bastos, gravou com o Araketu.

   Por outro lado, é fato que ele começou na barriga da mãe que, por sua vez, foi plasmada pelos sons que plasmaram as barrigas das avós, das bisavós… (“Tataravô, bisavô, avô, pai, Xangô, Aganju…”) 

   A música de Luizinho se enraíza no que lhe antecede em muito. Criado no Engenho Velho da Federação, dentro do Terreiro do Jêje (Salvador), sua primeira composição se chama, sintomaticamente, “Minha Nação é Jêje”.

   Os chamados jêjes, daomeanos falantes da língua fon, são a remota matriz da comunidade que origina o Aguidavi do Jêje, a orquestra de atabaques fundada por Luizinho no Zoogodô Bogum Malê Rundó, em Salvador. 

   Vale registrar que no Aguidavi não há apenas membros da nação Jêje: há também integrantes das nações Angola e Keto. Aquilo que em termos academicamente corretos poderia ser chamado de “sincretismo”, Luizinho prefere descrever como uma necessidade de “juntar as três nações pra gente amadurecer todo nosso conhecimento”.

   É possível que o que se escreveu até aqui e parte do que já se escreveu sobre Luizinho do Jêje e o Aguidavi deem a impressão de que se trata de um trabalho de coleta étnico-folclórica, um registro de cunho documental. E é aqui que a porca torce o rabo.

   Aguidavi do Jêje não é um disco de canções tradicionais: tudo nele é autoral. Luizinho do Jêje é um compositor tão contemporâneo quanto qualquer outro deste século XXI. Pensamos que a atmosfera de mistério que se desprende de sua fala, nas raras entrevistas que concede, deve ser creditada muito mais ao “não-saber” que envolve os criadores profundos do que às interdições impostas por preceitos religiosos — embora, evidentemente, esses digam muito.

    Caxixi, berimbau, pandeiro, agogô, rum, pi, lé, atabaqueria (uma bateria pra lá de moderna), uma série de tambores grandes de fabricação própria, além de um violão ostinato-percussivo — eis aí a formação instrumental do Aguidavi do Jêje, cuja pressão alicerça cantos responsoriais onomatopaicos e, diríamos — se fôssemos um pouco mais esnobes — algo surrealistas.

   Luizinho é um educador: desde 2000 dava aulas a uma ruma de meninos que hoje, crescidos, integram o Aguidavi (entre eles Kainã do Jêje, seu filho um dos principais percussionistas do Brasil de hoje). Já por volta dessa época, buscava no violão levadas novas, de talho mais percussivo do que harmônico. Não seria despropositado reivindicar, para seu violão, status de coisa inaugural na história do instrumento no Brasil. Mas isso não cabe a nós, e ele não se importaria. 

   Por outro lado, nada impede que seja o violão de Luizinho o mais novo instrumento de percussão brasileiro. Um pinho totêmico ao redor do qual tudo se organiza para celebração de uma festa na qual “o mistério permanece” — como bem notou Nei Lopes no texto da contracapa do álbum.

 

Fotografia: Diego Bresani