Ilessi

Em iorubá, “ilé” é “casa” e “si” é “ser, existir”.

Casa do Ser, a cantora e compositora carioca Ilessi acolhe diversos modos de manifestação da música brasileira: o tribal, o sofisticado, o experimental, o sentimental, o velho e – preferencialmente – o novo, já que em seu repertório figuram sobretudo autores ainda desconhecidos e, dos consagrados, canções inéditas ou escondidas. 

No primeiro CD (Brigador, 2009), a cantora já surpreendia, dedicando todo um trabalho à pouquíssimo conhecida parceria de Pedro Amorim e Paulo César Pinheiro. Nascido do campo fértil da Escola Portátil de Choro e arranjado por Luís Barcelos, “Brigador” registra a proximidade de Ilessi com nomes como Amélia Rabello, Luciana Rabello e Maurício Carrilho. 

Entre esse disco e o seguinte, 9 anos transcorreram, quando formou um duo com o violonista Diogo Sili dedicado à vasta obra de Manduka; aprofundou cada vez mais suas incursões nas atuais cenas mineira, paraense e paraibana; viveu um ano na Suécia, onde cursou Improvisação na Universidade de Örebro (com Nelson Faria e Berit Andersson) e se apresentou na Konsertsalen; cantou na França e na Inglaterra.

Finalmente, em 2018 nossa gravadora Rocinante lançou o segundo álbum de Ilessi, produzido no Estúdio Fazenda das Macieiras em Minas Gerais. Com direção e arranjos de Thiago Amud, Mundo Afora: Meada é a primeira depuração do mapeamento “autoral” que ela tem feito nos brasis por onde tem andado. Cancionistas de diversas cidades (como Alexandre Andrés, Edu Kneip, Milena Tiburcio e Paloma Roriz) e múltiplas formações instrumentais (por exemplo, trio de forró, power trio, grupo de câmara, flertes com a Índia, os Andes, o Uakti, as presenças de Nelson Angelo e Novelli) tecem aqui a densa meada que a voz de Ilessi deslinda.

Seja participando do show Berimbau: um tributo a Baden Powell – Eduardo Gudin convida Toquinho, Ilessi e Renato Braz (SESC Pompéia) ou da série de concertos Guinga e as Vozes Femininas (CCBB RJ), em comemoração aos 70 anos do grande artista, a convite do próprio; do “Sonora – Ciclo Internacional de Compositoras” ou do Coletivo Essa Mulher; da “Maratona Competitiva Novos Talentos da Música” (Teatro SESI FIRJAN), que venceu na categoria “Melhor intérprete” (defendendo “Ladra do Lugar de Fala” de Thiago Amud) ou dos incontáveis shows e gravações divididos com tantos criadores (como o próprio autor da “Ladra”), Ilessi só faz reafirmar que a música brasileira é sua causa.

Em 2020, dois discos inéditos reafirmam a coerência dessa espécie de missão: Com os pés no futuro – Ilessi e Diogo Sili interpretam Manduka, fruto longamente gestado pelo duo, e Dama de Espadas, também lançado aqui na Rocinante. 

A maioria das faixas desse trabalho é assinada pela própria intérprete (geralmente com parceiros como seu pai Gonzaga da Silva, Iara Ferreira, Simone Guimarães e Jorge Andrade), mas a atitude de band leader e o tratamento timbrístico estão a léguas do que talvez se espere de um álbum em que se registram delicadezas de uma criadora intimista. Produzido por Elísio Freitas e Vovô Bebê, Dama de Espadas flagra uma Ilessi em altíssima voltagem, debochada e aguerrida.

A Rocinante está começando a preparar o caminho para que em 2023 Ilessi dê o próximo passo fonográfico: a “segunda metade” do Mundo Afora. Mais uma vez, escoltada pelos arranjos multiformes de Amud, ela emprestará sua voz a versos e melodias de cancionistas espalhados pelos brasis.

Afinal, como o pianista e compositor André Mehmari escreveu sobre Ilé Si para o encarte de Mundo Afora: Meada, “mensageira não escolhe ser. É.”

Photo: João Atala